A Cor da Minha Fé

     Lembro de um livro que li há anos. Ainda em inglês, o livro se chamava A Cor da Água, escrito pelo norte-americano James McBride. É a estória de uma judia que casa com um homem negro e tem muitos filhos. Este livro é a biografia desta corajosa mulher contada por um dos seus filhos. Esta mulher fugiu da sua família judia tradicionalista para viver o seu amor e achar seu caminho no mundo. Neste previsível conflito, apimentado por raça e religião, emerge uma pergunta feita pelo autor, ainda menino, à sua mãe: “Mãe, qual é a cor de Deus?”. Ela diz que ele não é negro ou branco, muito menos de alguma tonalidade entre estes dois pólos. Pressionada por pergunta tão complexa, ela responde: “Deus é da cor da água”. Ele é da cor da água. Uma propriedade que nenhum mortal possui, ser da cor da água. Desde este dia, me conforta partir desta resposta para refletir sobre a natureza do criador. E a natureza da minha fé. A primeira característica que me prende é a cor mesmo. A cor da água. A transparência da água. Esta clareza da verdade que toma mil formas, mas permanece verdade com toda sua capacidade curativa e regeneradora. Quando suja, barrenta, misturada a outras substâncias, é natureza de água que permanece, dando vida ao que de outra maneira estaria inerte e morto. Outro aspecto divino da água que me toca é a sua permanência. Desde quando o mundo é mundo, como o conhecemos, a quantidade de água no planeta é a mesma. Ela somente aumenta quando pensamos na crescente população da Terra, temos mais água do que qualquer outra coisa na nossa constituição.  Mesmo que não a percebamos quando é nuvem seguindo os ventos sábios. Mais um ponto na lista, a utilidade da água. São tantas. E a mais importante delas, que é nos manter vivos. Nos dá alimento dos próprios animais que ela abriga. Entre eles, os peixes e a sua compassiva alma de cardume. Navegamos mares e rios, enfrentando os caprichos dos mesmos. Tentamos compreender a água, assim como tentamos compreender Deus, mas precisamos vivê-la, escutá-la e guardar a sabedoria dos seus sussurros. A última coisa que me recordo é da memória, da memória da água. Sim, a água possui uma memória que guarda eternamente tudo que faça parte dela por menos que um segundo. E a ponta de um dedo meu que toque esta água, vai fazer parte dela para sempre. Será água reconhecendo água. Quanto mais repasso estas idéias em meus sonhos acordados, mais vejo que falo tanto de Deus quando da minha fé. E como os variados corpos de água do planeta, minha fé assume diferentes formas nos mais variados momentos. Pode ser um lago meditativo ou assumir a força das águas de março. Ser riacho constante e humilde, escorrendo entre pedras que machucam e purificam. Gosto quando oro no silêncio da madrugada e visualizo as nuvens espelhando uma geleira imensa e inquebrantável. Sinto que prossigo sempre, como as nuvens que carregam os ensinamentos do gelo. Um poeta disse: “Nós somos mímicos. As nuvens são pedagogas”. Com estas palavras e símbolos a minha fé escorre para que novos símbolos e palavras venham manter esta fonte de vida chamada fé em todos nós. E estes estados da água, sólido, líquido e gasoso são como as estações da minha fé. Esta fé respeita a minha razão e se permite ter fórmula química. Meus testes e recompensas. E ela é sempre trampolim, lá embaixo mais água, como não poderia deixar de ser. Por último lembro das drogas, e dos drogados em uma busca incessante por uma experiência compensadora, uma experiência de fé. Pois saibam, onde o drogado se afoga o místico nada com prazer. E nestas águas da fé em tudo é que devemos estar, em estado de comunhão revigorante com todos os nossos sonhos.           

Published in: on setembro 16, 2008 at 3:31 pm  Comments (9)