ao pó (através do Gita)

um poeta escreveu um livro
please, plant this book, richard brautigan
um livro de instruções
os poemas eram rótulos em saquinhos de sementes
nenhum grão de mostarda
no espaço do jardim quero:
horta, pomar, bosque e labirinto

sweet alyssum royal carpet
sasha daisy
squash star fruit aspen
parsley
alface california native flower
carnation willow water violet
cenouras flor-de-mel pomegranates
calendula

penso se alguém seguiu suas orientações
queria plantar meu livro de poemas
não possuo semente alguma
nem livro algum
plantarei este poema
e as flores que brotarem
deverão ser colhidas pelos longos dedos enlutados de
uma verdadeira dama da noite

estranhos negócios estes que temos com a terra
feitos dela
pesados como ela
esta intransferível passagem de ida e volta que recebemos
antes de chorar

os coveiros deveriam reflorestar
madeira para ataúdes
replantar as mesmas árvores
que os romanos usavam para fazer cruzes

falo ao carpinteiro que me conta estórias
as primeiras idéias sempre vão para o solo
diz mais saber das águas e dos ares
e que a terra tampouco lhe foi leve:
não me interessa o que vira pó
paletós de madeira e afins
já que sabes do pó ao pó
concentre-se na jornada

a cada vez que deus inspira
nos sentimos voltando para casa

Published in: on janeiro 20, 2009 at 10:04 am  Comments (5)  

Ondas e Vagas

alice encontra a lagarta

para alice está tarde para as palavras

sobre o lindo cogumelo gigante a lagarta oferece a névoa reparadora

some alice como se fosse o ar

“nas mesmas águas que o místico nada o drogado se afoga”

eu e alice nunca passamos da arrebentação

em alto mar todas as ondas são vagas

não quebram simplesmente

sua arte é perambular.

nem com todos os aterros

possui a terra a pedagogia das águas

matamos a circum-navegação

e nossa arte de vagar

um rochedo precioso atirado em alto mar

é mais túmulo que adorno

Published in: on janeiro 5, 2009 at 3:44 pm  Comments (1)